Cirurgia bariátrica: um fenômeno perigoso

Saiba por que operar o estômago não é a solução ideal para todo mundo.

Corte03

Os novos hábitos adquiridos com a vida moderna, como o alto consumo de alimentos industrializados e o sedentarismo, estão causando verdadeiras transformações na sociedade. Segundo dados do Ministério da Saúde, quase metade da população brasileira está com sobrepeso e 17% sofre de obesidade.

Apesar dos comentários recebidos pelas pessoas que fazem parte destes dois grupos serem igualmente maldosos, existe uma diferença muito grande entre ter dificuldade para emagrecer, estar acima do peso e ser obeso, algo que muita gente parece ignorar, principalmente quando o assunto é a cirurgia bariátrica.

Cansadas das dietas que nunca funcionam e de não se adequarem aos padrões de beleza impostos, cada vez mais pessoas têm procurado a cirurgia bariátrica como se ela fosse a solução para qualquer problema relacionado ao excesso de peso. Alguns, inclusive, chegam até a engordar propositalmente para atingir o IMC exigido para a operação, ignorando a complexidade do procedimento e suas consequências.

 

A DECISÃO

Maria Fernanda Sampaio, 26 anos, ouviu algumas vezes que tinha um “rosto bonito” antes de decidir fazer a cirurgia. “Isso é uma das coisas mais ofensivas que alguém pode falar quando você está acima do peso, mas as pessoas não sabem disso e continuam falando”, conta a entrevistada que até os 24 anos conviveu bem com o corpo que tinha.

Apesar de não ter problemas de autoestima, a partir de 2007, Maria Fernanda começou a engordar em ritmo acelerado. Entre dietas e remédios que nunca deram certo, ela ganhou aproximadamente 34 kg em apenas 3 anos, o que começou a lhe trazer uma série de problemas de saúde.

Diante de um corpo que, ainda muito jovem, já sofria com os efeitos negativos da obesidade, Maria Fernanda decidiu que precisava emagrecer e, depois de uma conversa com seu médico, começou a cogitar a cirurgia bariátrica. “Eu pensava que podia ser uma opção, mas eu tinha preconceito. Eu achava que quem fazia redução de estômago era preguiçoso, mas hoje eu pago a minha língua”, conta.

Para tomar a decisão da maneira mais consciente possível, Maria Fernanda conversou com médicos e pessoas que já haviam passado pelo procedimento, frequentou palestras e fez acompanhamento com um psiquiatra, o que, para ela, foi fundamental. “A bariátrica é uma coisa que tem que ser muito conversada entre o paciente e o médico. Se a pessoa encara a cirurgia sem estar psicologicamente preparada, ela vai achar que a operação é uma mágica, e não é. Tudo depende de você”, relata Maria Fernanda que, em um ano e meio, já perdeu 44Kg.

 

A CIRURGIA

Atualmente, existem quatro modalidades de cirurgia bariátrica que podem envolver a redução da capacidade estomacal, a diminuição da absorção intestinal ou uma combinação das duas técnicas.

Cada uma delas possui características específicas, mas de maneira geral, para a realização de qualquer uma das cirurgias é necessário que o paciente possua índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 40 kg/m2. Candidatos com IMC inferior a isso só são aceitos mediante comprovação de doença diretamente agravada pelo excesso de peso.

Depois da cirurgia, o paciente deve permanecer durante 3 semanas em uma dieta líquida. Após esse período, os alimentos sólidos são gradativamente reinseridos na rotina do operado, até que ele possa voltar a comer de tudo, porém, em quantidades significativamente reduzidas.

Um efeito colateral recorrente da cirurgia bariátrica, em especial daquelas que envolvem algum tipo de desvio de intestino, é o Dumping, uma síndrome ocasionada pela rápida absorção de glicose após a ingestão de carboidratos, doces ou bebidas alcóolicas. Os sintomas mais comuns dessa reação são cefaleia, náusea, sudorese, taquicardia, tremores e diarreia. Não existe cura para o Dumping e, por isso, muitos operados são obrigados a cortar completamente o açúcar de suas dietas.

Outra reação possível é o desenvolvimento de uma espécie de intolerância a alguns tipos de alimentos. No caso de Maria Fernanda, por exemplo, alface e nori (aquela alga que envolve sushis e temakis) são garantia de um mal estar terrível. “Se você fez a cirurgia porque quis e teve o apoio psicológico necessário, você vive com essas coisas. Eu nunca mais vou poder comer um temaki, mas isso não me afeta nem me deixa triste, é simplesmente uma condição”.

O RESULTADO

Para Maria Fernanda, a maior mudança que veio com a cirurgia foi a possibilidade de cortar a sua relação de dependência com a comida.  “Eu não perdi o prazer de comer. A diferença é que, hoje, sou eu que como a comida e não ela que me consome”, relata.

Com o estômago reduzido, apesar de comer muito menos em quantidade, Maria Fernanda conta que se alimenta o dia inteiro, pois sente fome muito mais rápido. Depois da cirurgia, ela foi aprendendo a ouvir as demandas naturais do corpo e a respeitá-las, o que transformou profundamente seus hábitos alimentares e aboliu de vez a culpa à mesa.

Apesar de rápidas, nenhuma dessas mudanças foi fácil. Após a operação, o paciente precisa reaprender a conviver com o próprio corpo e isso pode trazer uma série de dificuldades. “A diferença entre estar satisfeito e passar mal é uma colherada. Mas você vai aprendendo”, conta Maria Fernanda que até hoje faz acompanhamento com um psicólogo para lidar melhor com as questões trazidas pela cirurgia.

Nos últimos cinco anos, o número de cirurgias bariátricas no Brasil cresceu 90%, indicativo de uma popularização alarmante gerada não só pelo aumento do acesso ao procedimento, mas também por uma banalização perigosa.

Hoje, com 63kg, tão nítida quanto o impacto positivo que emagrecer teve na vida de Maria Fernanda, é a consciência que ela tem da seriedade do procedimento que fez.  “A bariátrica não é uma brincadeira. É uma mudança de vida que vai durar para sempre. Ela tem que ser a sua última opção”, conclui.

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