Navegar é preciso, viver não é preciso*

A filósofa Viviane Mosé leva a célebre frase de Fernando Pessoa para o dia a dia

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Lisboa, cidade onde viveu Fernando Pessoa, poeta português autor deste famoso verso, é uma belíssima cidade rodeada por águas. Às margens do volumoso rio Tejo, Lisboa nos soa como um eterno convite à navegação.
A primeira vez que estive na Torre de Belém, ponto de onde partiram Cabral e sua frota, entendi imediatamente o espírito desbravador dos portugueses. Aquelas águas doces, que já avistam o mar onde se fundirão, parecem uma terna e doce estrada em direção à imensidão, ao desconhecido. Uma estrada que todos os dias os convida a navegar.

Todo homem carrega consigo, na consciência que tem da totalidade, o infinito, ao mesmo tempo que se sabe ínfimo como um grão de areia. É esta tensão tipicamente humana, que nos alarga a alma, que nos torna maiores do que somos; de um lado a vontade de fixar, de ter estabilidade, de outro a vontade de ir.

E em Lisboa, o Tejo esta sempre a convidar: venham, vamos comigo desaguar na imensidão, vamos nos fundir ao infinito; esqueçam os papéis sociais, as lutas por território, a busca por controle; vamos parar de tentar todo o tempo dirigir, vamos apenas seguir o fluxo dos ventos e das marés, vamos nos deixar levar, vamos viver.

Foi nesse cenário, que nosso grande poeta da língua portuguesa viveu, foi daí que surgiu este verso que parece nos dizer que navegar não é o oposto de viver, mas o complemento; se, de um lado, sobreviver é lutar, por outro viver é navegar, se deixar levar pelas vagas das ondas, viver é contemplar.

Navegar é afirmar a condição humana, ao contrário de negá-la; é voluntariamente se posicionar entre a imensidão do céu e do mar; é afirmar a fragilidade da vida, não como um lamento, mas como uma exaltação.

* Viviane Mosé é capixaba, mas vive no Rio de Janeiro desde 1992. É psicóloga, psicanalista, mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Autora do livro “Stela do Patrocínio – Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, indicado ao prêmio Jabuti de 2002, co-organizadora do livro “Beleza, feiúra e psicanálise” e participou da coletânea “Assim Falou Nietzsche”.

(Texto publicado originalmente na Revista Delboni Auriemo. Você pode fazer o download para iPad neste link (http://bit.ly/XIXQER) ou retirar sua versão impressa em qualquer Unidade de Atendimento do Delboni (http://bit.ly/XIXNc2).)

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