Profissão aventura

Médicos Sem Fronteira trocam o conforto do dia a dia para levar ajuda emergencial a vítimas de conflitos armados, epidemias e desastres naturais

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Recrutar pessoas com ótimos conhecimentos em inglês ou francês – de preferência ambas as línguas – com pelo menos dois anos de experiência profissional, capacidade para lidar com grande carga de trabalho e estresse em situações de conflito, doenças tropicais, violência, fome e total falta de acesso a cuidados básicos de saúde. Esse é o desafio do escritório do Médicos sem Fronteiras (MSF) no Brasil, em funcionamento há seis anos no Rio de Janeiro.

Os selecionados são enviados para um dos 60 países onde a instituição atua e trabalham em projetos que duram de 1 a 12 meses. Os escolhidos não decidem o destino da missão e só podem recusá-lo se tiverem uma razão consistente ou forem veteranos na entidade. Além disso, devem seguir medidas rigorosas de segurança, como toque de recolher, obrigação de andar sempre com um rádio comunicador, proibição de circular em certas zonas e ter um plano de evacuação onde isso se fizer necessário.

Mesmo que vá para uma área pacífica, nunca haverá risco zero de sofrer um ataque violento. O caso mais grave aconteceu no Afeganistão, em 2004, quando cinco pessoas morreram. Os perigos mais comuns são, no entanto, acidentes de trânsito e malária.

O primeiro se deve, na maioria dos casos, às precárias condições de transporte em ruas obstruídas por destroços de guerra, furacões, tsunamis ou terremotos. Já a malária mata, a cada ano, aproximadamente 2 milhões de pessoas e infecta em torno de 500 milhões – 90% das mortes são registradas na África Subsaariana.

A remuneração é menor que o salário mínimo da França (atualmente em 1.425,67 euros), onde o MSF foi criado: varia, para os iniciantes, de 700 a 1.040 euros, mais ajuda de custo. Moradia e transporte são por conta da entidade. “Os profissionais não são impulsionados pelo dinheiro, mas pela vontade de levar ajuda humanitária a pessoas que vivem em situações de crise”, afirma o diretor de Recursos Humanos do MSF no Brasil, Dominique Delley.

Em 2011, cem brasileiros foram selecionados. O perfil do grupo é variado. São médicos, cirurgiões, motoristas, administradores, enfermeiros, psicólogos e profissionais de logística. Muitos, após ingressar na entidade, deixam o emprego formal para se dedicar exclusivamente à organização.

Sonho de estudante
Uma das brasileiras recrutadas é a anestesiologista carioca Liliana Mesquita Andrade. “Todo estudante de medicina tem esse sonho de participar de um trabalho médico humanitário”, afirma. O problema, segundo ela, é que, ao final do curso, os interesses mudam e, como qualquer jovem que ingressa no mercado de trabalho, carreira e projetos pessoais são priorizados. O seu caso, porém, foi diferente. Ciente da carência de profissionais da sua especialidade no MSF, ela buscou a organização logo que se formou. “Uma vez conhecida, não tem como não se apaixonar pela causa, apesar de todas as dificuldades”, diz.

Liliana já participou de atividades no Haiti, República Centro Africana, Paquistão, Sudão e Faixa de Gaza. Sua melhor experiência foi no Paquistão, onde enfrentou os maiores desafios. “Não só pela zona de conflito, mas também pela cultura; tive de usar roupa muçulmana e véu”, lembra. Os piores dias ela viveu no Haiti, de onde voltou com uma gastroenterite.

Todas as vivências, porém, a transformaram. “Sem dúvida, nos tornamos melhores, damos ainda mais valor ao que realmente importa”, avalia. Aos que têm receio de se aventurar em uma jornada assim, ela assegura que amenizar o sofrimento de tanta gente torna a experiência maravilhosa: “Quando estamos em campo, esquecemos de todo e qualquer luxo; o nosso foco é único, estamos ali para ajudar, é uma doação.”

Além disso, a passagem pelo MSF é também um aprendizado para a carreira. Ao compartilhar experiências, pessoas de diferentes lugares – são 30 mil em todo o mundo – complementam a formação. “É muito bom trabalhar para quem precisa e com quem quer trabalhar; a motivação é outra”, afirma Liliana. Há ainda uma incomparável evolução enquanto ser humano. “Nunca imaginei que poderia me tornar um vetor tão importante”, finaliza a médica.

Nobel da paz
Criada em 1971, o MSF é uma organização humanitária internacional que leva ajuda emergencial a vítimas de conflitos, epidemias, desastres naturais, exclusão do acesso à saúde e denuncia sofrimento e obstáculos encontrados na tentativa de oferecer ajuda. Por seu trabalho, em 1999 recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

Com escritórios em 22 países e projetos de ajuda médica em mais de 65 nações, orienta-se pela ética médica e pelos princípios de independência, neutralidade e imparcialidade. Consegue operar de forma autônoma porque não de- pende financeiramente de governos ou poderes políticos – é mantida, em grande parte, por doações particulares. A decisão sobre onde e como intervir é baseada em uma avaliação das necessidades de saúde de indivíduos ou grupos. Um projeto começa com uma crise ou a pedido de organizações.

Para se tornar um doador para Médicos Sem Fronteiras basta ligar para (21) 2215-8688 ou entrar no site da organização.

*Por Melissa Medroni

(Texto publicado originalmente na Revista Delboni Auriemo. Você pode fazer o download para iPad neste link (http://bit.ly/XIXQER) ou retirar sua versão impressa em qualquer Unidade de Atendimento do Delboni (http://bit.ly/XIXNc2).)

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